Letícia Reis
Essa pedra tomei pra mim, quando mãe morreu. O povo me manda pôr no chão, mas não sopesa mais que aquele dia, acostumei...Faço de pés a postos, como um aleijado. E se me pergunta se carregar essa pedra é mais trabalho que o trabalhar na vida, eu digo, pois mais é, porque fui eu que assim escolhi. Nunca tinham me dado o gozo de escolher nada. O povo fala, manga e faz danação quando eu passo, me chamam o “cão da pedra”, “o doido de pedra”. Ora, doido, eu? Me siga e sinta! Quando eu quebrantava as pedras e não tinha hora, quando eu sangrava as mãos e ninguém dava conta, era o quê aquilo? E mãe, ah sabe, mãe insistia em meter a gente naquele inferno daquela pedreira, pois pra ela todo trabalho era uma honestidade. Uma mulher muito boa, minha mãe... Ela não via, assim, maldade nas coisas. Eu explicava, ela não ouvia. “Mãe, esse povo não sabe virtude!” — Eu dizia. Era como se eu já ali subisse essas escadas todas, há tempos. E tudo agora é um desajuste pra essa gente que me segue feito mosca no lixo. É como digo: essa pedra não me pesa mais! Essa gente louca que caminha não sei pra onde. Não sei o que eles querem...E a escada pouco me cansa...Essa uma não me pesa mais que minha visão, a que tive e não posso mais deixar de ver: mãe preta e morta no quintal de nossa casa. E há dó que dê conta dessa dor? Subir e caminhar, não é o mesmo sacrifício? Essa pedra não há de pesar mais, assim sinto eu. É que é coisa minha, entende? Tão minha que nem digo. Tão minha quanto a certeza de que nem tudo deve ser dito. E sei mesmo que vou morrer junto com ela no oco de minha cabeça. Já perguntaram se isso é religião, promessa... É não! Nunca fui dessas coisas. Eu nem sei que diabo é deus. O que sei é que ele nunca a mim serviu pra nada. E desde que me entendo homem, eu mesmo me resolvo. Acredite se quiser! Uma vez, sabe, eu quebrava um pedregão grande, uma ardósia azulada pura e limpa, grande que mais parecia o mundo inteiro. Era uma pedra, pedra, assim, dona de si. Era feito gente que sem saber mesmo se sabe. Raivosa, brava feito bicho. Lançava picoteios que comiam minhas carnes. Imagine um vento feito de facas, pois sim era aquilo! Cada martelada era um corte. Ela me era teima e me sussurrava baixinho que era muito, muito mais do eu. Veja, e quem era ela? Podia até ser mais bonita, eu sempre fui uma desgraça...Tinha um cinzentado, um azul, feito céu que chove num chove, uma coisa...Bonita demais era aquela pedra. Não fiz ouvido, sabe. Fui vencendo, vencendo, quebrantando dias e dias, ferindo ela, entrando nela, sem cansaço, sem corpo mole, sem corpo mesmo. Ai, que ela não queria se desfazer, tão menos queria se dar pra mim. Eu alucinei naquele diabo, cerrado em mim, nem era mais gente. Endoidei. Me vi matando cavalos imensos tão pedra quanto a pedra. Me vi na boca duma serpente, feito serpente. E pras tantas, me vi em morte minha. Tudo assim, de martelo em punho! Eu memoriava o que eu nem sequer sabia que podia existir. Trocinhos de minha vida se partindo, enquanto a pedra se desfazia sem vontade. E guarde: deus não me veio! Esse tal que o povo fala, nunca me veio. Não era ele que estava lá. Conto outra: dia desses, eu vinha cá e minha pedra por caminho estreitinho, escurão lado a lado, nem canto de passarinho...Foi quando um cabra me aporrinhou feito o demo, dando de cipó e força em minhas costas. Tudo no intento d'eu largar o demônio da pedra. Pois veja, e deus? Cadê? Nem ele, nem eu, pois nada! Eu se eu já certeza tinha, tive mais; como tenho de cada degrau que hei de subir nesta escada. Mas me diga, de cismas se vive? É preciso uma cisma para viver? De onde se vem, por que, não se diz? Só doido fala, é? Eu respondo? E é nada? Pois não lhe disse ha uns cem degraus pra baixo? O fio das coisas já se foram, lembrança minha agora é muito pouca. Subindo essas escadas, me esqueço de tudo. — Não quero mais falar de minha mãe! Deixe os mortos enterrar seus mortos, minha senhora! Só me vem a cruz que ela aceitou e carregou nas mãos. Uma cruz que tinha lá um Cristo sem pernas. Só o meio, só metade, era o que tinha. Falando assim, lembro que desfilei o nó dos dedos dela e livrei a pobre dali. Coitada!...Quando o povo entrou em casa, eu de nada recordava... No dia seguinte, vieram me dizer que ela não podia ser enterrada junto com os outros, por que dera cabo de seu destino e que o “senhor” não permitia isso. E que essa era a vontade dele, “deus”. Em ocasião nem disse nada. Aquilo ela tinha no quarto com os santos todos, a cruz. Vela, reza, tudo, ela se gastava com esse negócio de religião. A pedra que ela assentava os joelhos sempre a rezar por mim e nossa gente no terreiro lá de casa era irmã dessa que eu carrego, vem tudo do mesmo barro. Da partição mesma dela que brotou essa. Quieta, mãe desfilava o rosário, indo e vindo nas contas sem noção de perder o caminho da oração, nada não dizia... Eu então nada falava, por que tudo nela era bondade mesmo. Hoje cá comigo penso: “pra quê adianta tanta reza!”. Olhe, veja isso, daqui desse ponto da escada se é mais alto! Daqui o que há é pequeno, miúdo mesmo. E muito o povo se amiúda, muito mais que a gente sobe. E também se vê a visão mais bonita do rio. Dele a passar como se a gente não nunca existisse... Passando, assim, como se cego todo mundo fosse e nunca tivesse sido rio lá, lá embaixão... A pedra tenho pra mim que é de maré, não de rio, mas sim de mar, pois sem me dar conta, hora pesa o tudo que há; e há vez que nada pesa...,— estranho —, acho que é a gente a falar. A falar contando a pedra faz e se desfaz, não como no inferno da pedreira, mas como as irmãs pedras do rio: um dia pedra, um dia lama, até que rio. Depois revés, assim, sem explicação. Me pergunta se há propósito? Pois lhe antecipo que não há! Mãe era que assim, nessa medida, via fim em tudo. Achava que gente feito o cão existe pra que um dia o céu se abrisse só pra quem bom fosse. Nunca entendi minha mãe! Acho que ela quis um deus homem que lhe servisse em defesa, como eu nunca fiz. Ela deu com o engano, por isso lhe aviso: cuidado com deus! Cuidado com deus! Quando a gente põe deus dentro da gente é feito doença que toma tudo e, primeiro, depois mata...vê minha mãe, vê. E onde que está? Morta, já se sabe! É um como esse caminho mais estreitinho da escada, só aceita pé ante-pé. Cuidado. A gente vai pelos cantos, se fere como o diabo nas pedras, mas avança devagar. Sabe, se essa ladainha parasse e esse povo desistisse de querer me dar santidade, minha subida seria mais fácil. O povo pensa...”É a pedra!”. Não é a pedra que pesa, é o povo em choramingas atrás de mim, nessa procissão!...Quando me canso, feito nessas horas, paro um pouco e me ponho longe, muito longe... Dá vontade de tapar os ouvidos, largar a pedra e não escutar mais essa gente. Eu nem me reconheço, nem mais me sei, se existo ou não...A pedra fica áspera, indócil. O estreito leva aos degraus mais largos, lá o povo dispersa mais, sai um pouco de junto! Desacotovela...As passadas se alargam e pé-junto-pé, paralelo, tudo assim, rente uma coisa com a outra. Eu bem sei que quando lá chegar a pedra já vai tá muito miúda. A ventania leva de pouco a pouco, minhas mãos se vêem afundando nessa que um dia foi filha do mesmo pedregão das rezas de minha mãe. Agora é esse estreitinho. Hoje tá bom, o céu tá limpo, mas na tempestade, no entre-raios, a pedra fica mansa, quieta, nem parece pedra. E eu sigo até o alto. E lá eu sei, que essa gente se vai e dispersa...Assim como dispersa e vai muito aos poucos, a cada segundo, um tanto, um tantinho desta pedra.







