19 de novembro de 2009

A PEDRA

Letícia Reis



Essa pedra tomei pra mim, quando mãe morreu. O povo me manda pôr no chão, mas não sopesa mais que aquele dia, acostumei...Faço de pés a postos, como um aleijado. E se me pergunta se carregar essa pedra é mais trabalho que o trabalhar na vida, eu digo, pois mais é, porque fui eu que assim escolhi. Nunca tinham me dado o gozo de escolher nada. O povo fala, manga e faz danação quando eu passo, me chamam o “cão da pedra”, “o doido de pedra”. Ora, doido, eu? Me siga e sinta! Quando eu quebrantava as pedras e não tinha hora, quando eu sangrava as mãos e ninguém dava conta, era o quê aquilo? E mãe, ah sabe, mãe insistia em meter a gente naquele inferno daquela pedreira, pois pra ela todo trabalho era uma honestidade. Uma mulher muito boa, minha mãe... Ela não via, assim, maldade nas coisas. Eu explicava, ela não ouvia. “Mãe, esse povo não sabe virtude!” — Eu dizia. Era como se eu já ali subisse essas escadas todas, há tempos. E tudo agora é um desajuste pra essa gente que me segue feito mosca no lixo. É como digo: essa pedra não me pesa mais! Essa gente louca que caminha não sei pra onde. Não sei o que eles querem...E a escada pouco me cansa...Essa uma não me pesa mais que minha visão, a que tive e não posso mais deixar de ver: mãe preta e morta no quintal de nossa casa. E há dó que dê conta dessa dor? Subir e caminhar, não é o mesmo sacrifício? Essa pedra não há de pesar mais, assim sinto eu. É que é coisa minha, entende? Tão minha que nem digo. Tão minha quanto a certeza de que nem tudo deve ser dito. E sei mesmo que vou morrer junto com ela no oco de minha cabeça. Já perguntaram se isso é religião, promessa... É não! Nunca fui dessas coisas. Eu nem sei que diabo é deus. O que sei é que ele nunca a mim serviu pra nada. E desde que me entendo homem, eu mesmo me resolvo. Acredite se quiser! Uma vez, sabe, eu quebrava um pedregão grande, uma ardósia azulada pura e limpa, grande que mais parecia o mundo inteiro. Era uma pedra, pedra, assim, dona de si. Era feito gente que sem saber mesmo se sabe. Raivosa, brava feito bicho. Lançava picoteios que comiam minhas carnes. Imagine um vento feito de facas, pois sim era aquilo! Cada martelada era um corte. Ela me era teima e me sussurrava baixinho que era muito, muito mais do eu. Veja, e quem era ela? Podia até ser mais bonita, eu sempre fui uma desgraça...Tinha um cinzentado, um azul, feito céu que chove num chove, uma coisa...Bonita demais era aquela pedra. Não fiz ouvido, sabe. Fui vencendo, vencendo, quebrantando dias e dias, ferindo ela, entrando nela, sem cansaço, sem corpo mole, sem corpo mesmo. Ai, que ela não queria se desfazer, tão menos queria se dar pra mim. Eu alucinei naquele diabo, cerrado em mim, nem era mais gente. Endoidei. Me vi matando cavalos imensos tão pedra quanto a pedra. Me vi na boca duma serpente, feito serpente. E pras tantas, me vi em morte minha. Tudo assim, de martelo em punho! Eu memoriava o que eu nem sequer sabia que podia existir. Trocinhos de minha vida se partindo, enquanto a pedra se desfazia sem vontade. E guarde: deus não me veio! Esse tal que o povo fala, nunca me veio. Não era ele que estava lá. Conto outra: dia desses, eu vinha cá e minha pedra por caminho estreitinho, escurão lado a lado, nem canto de passarinho...Foi quando um cabra me aporrinhou feito o demo, dando de cipó e força em minhas costas. Tudo no intento d'eu largar o demônio da pedra. Pois veja, e deus? Cadê? Nem ele, nem eu, pois nada! Eu se eu já certeza tinha, tive mais; como tenho de cada degrau que hei de subir nesta escada. Mas me diga, de cismas se vive? É preciso uma cisma para viver? De onde se vem, por que, não se diz? Só doido fala, é? Eu respondo? E é nada? Pois não lhe disse ha uns cem degraus pra baixo? O fio das coisas já se foram, lembrança minha agora é muito pouca. Subindo essas escadas, me esqueço de tudo. — Não quero mais falar de minha mãe! Deixe os mortos enterrar seus mortos, minha senhora! Só me vem a cruz que ela aceitou e carregou nas mãos. Uma cruz que tinha lá um Cristo sem pernas. Só o meio, só metade, era o que tinha. Falando assim, lembro que desfilei o nó dos dedos dela e livrei a pobre dali. Coitada!...Quando o povo entrou em casa, eu de nada recordava... No dia seguinte, vieram me dizer que ela não podia ser enterrada junto com os outros, por que dera cabo de seu destino e que o “senhor” não permitia isso. E que essa era a vontade dele, “deus”. Em ocasião nem disse nada. Aquilo ela tinha no quarto com os santos todos, a cruz. Vela, reza, tudo, ela se gastava com esse negócio de religião. A pedra que ela assentava os joelhos sempre a rezar por mim e nossa gente no terreiro lá de casa era irmã dessa que eu carrego, vem tudo do mesmo barro. Da partição mesma dela que brotou essa. Quieta, mãe desfilava o rosário, indo e vindo nas contas sem noção de perder o caminho da oração, nada não dizia... Eu então nada falava, por que tudo nela era bondade mesmo. Hoje cá comigo penso: “pra quê adianta tanta reza!”. Olhe, veja isso, daqui desse ponto da escada se é mais alto! Daqui o que há é pequeno, miúdo mesmo. E muito o povo se amiúda, muito mais que a gente sobe. E também se vê a visão mais bonita do rio. Dele a passar como se a gente não nunca existisse... Passando, assim, como se cego todo mundo fosse e nunca tivesse sido rio lá, lá embaixão... A pedra tenho pra mim que é de maré, não de rio, mas sim de mar, pois sem me dar conta, hora pesa o tudo que há; e há vez que nada pesa...,— estranho —, acho que é a gente a falar. A falar contando a pedra faz e se desfaz, não como no inferno da pedreira, mas como as irmãs pedras do rio: um dia pedra, um dia lama, até que rio. Depois revés, assim, sem explicação. Me pergunta se há propósito? Pois lhe antecipo que não há! Mãe era que assim, nessa medida, via fim em tudo. Achava que gente feito o cão existe pra que um dia o céu se abrisse só pra quem bom fosse. Nunca entendi minha mãe! Acho que ela quis um deus homem que lhe servisse em defesa, como eu nunca fiz. Ela deu com o engano, por isso lhe aviso: cuidado com deus! Cuidado com deus! Quando a gente põe deus dentro da gente é feito doença que toma tudo e, primeiro, depois mata...vê minha mãe, vê. E onde que está? Morta, já se sabe! É um como esse caminho mais estreitinho da escada, só aceita pé ante-pé. Cuidado. A gente vai pelos cantos, se fere como o diabo nas pedras, mas avança devagar. Sabe, se essa ladainha parasse e esse povo desistisse de querer me dar santidade, minha subida seria mais fácil. O povo pensa...”É a pedra!”. Não é a pedra que pesa, é o povo em choramingas atrás de mim, nessa procissão!...Quando me canso, feito nessas horas, paro um pouco e me ponho longe, muito longe... Dá vontade de tapar os ouvidos, largar a pedra e não escutar mais essa gente. Eu nem me reconheço, nem mais me sei, se existo ou não...A pedra fica áspera, indócil. O estreito leva aos degraus mais largos, lá o povo dispersa mais, sai um pouco de junto! Desacotovela...As passadas se alargam e pé-junto-pé, paralelo, tudo assim, rente uma coisa com a outra. Eu bem sei que quando lá chegar a pedra já vai tá muito miúda. A ventania leva de pouco a pouco, minhas mãos se vêem afundando nessa que um dia foi filha do mesmo pedregão das rezas de minha mãe. Agora é esse estreitinho. Hoje tá bom, o céu tá limpo, mas na tempestade, no entre-raios, a pedra fica mansa, quieta, nem parece pedra. E eu sigo até o alto. E lá eu sei, que essa gente se vai e dispersa...Assim como dispersa e vai muito aos poucos, a cada segundo, um tanto, um tantinho desta pedra.

25 de outubro de 2009

Olha o canto da sereia



Matheus Albergaria

Tenho a nítida impressão de que quando entro na sala de aula, o cenário muda. Não por causa de mim, lógico. Sou um mero espectador. Tenho para mim que a figura do mestre ali na frente não é mais a do simples professor. O professor é uma sereia. A sua voz, o seu gingado, a sua performance, cada vez mais que eu vejo e sinto, mais me convenço de que professores são seres encantados, contudo, profanos. Digo isso porque eu e meus pares acreditamos quase que de forma absoluta no que ele categoricamente afirma. Nós não sabemos desconfiar. Aliás, nós não aprendemos a desconfiar. Aliás, nós não aprendemos a aprender. Sei que é difícil: o canto da sereia é mais forte, nos seduz e nos cativa. Por essa razão me identifico com um desses eus-líricos de Fernando Pessoa quando diz que “ sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono”. A licença poética me permite — creio— não colocar a referência do trecho. Catem-no! Será útil.

3 de julho de 2009

LIVRO (Letícia Reis)



Um livro usado, prostitutas palavras...

Um livro campado, jamais derrotado!

Bamboleio na borda da pálpebra meio fio...

Um livro bêbado, abusado...

Amanhecido.

Amarelado.

Amado.

Um livro

vintém,

sagrado.

Um livro

certo,

escapulário.

Noturno.

Um.

Livro.

A penas,

um

livro

ousado

....

1 de maio de 2009

CUENTOS CONTRA-HADA: LA MONA BORRACHERA


Abdon Borges


Bueno voy a contarles la historia de mi vida: era una vez...
Dos amigas que compartían una habitación en la Calle Larga, una era guapísima mientras la otra era horrienda y se nombraba Blanca de Las Nieves. La bella era azafata y tenía un novio que se llamaba Chupa Cabra. Ya la fea no lograba emplearse en ninguna oficina, taller, tienda, peluquería, carnicería, o sea, en ninguna empresa porque no poseía ningún atractivo. Ella era flaca, baja, visoja, zurda, seno de cacauete, boca ancha con dientes faltando, manos arrugadas y piernas de golondrina. Y por eso era muy sola. Por sopuesto, ¿Quién en su siso iba a enamorarse de una mujer así?
Las dos vivian tranquilamente, mientras la hermosa trabajaba, Blanca de Las Nieves arreglaba la habitación. Y así Blanca de Las Nieves pasaba sus días: lavando ropas, limpiando el baño, pasando pañuelo en los mobiles, sacando el polvo de la estantería, pasando la escoba por todos los sítios de la casa. Además, preparaba el desayuno, almuerzo y cena de la guapa, le costuraba las ropas y le peinaba el pelo. La bella la estimaba muchísimo y lo creía que Blanca de Las Nieves lo sentía igual porque apenas iba a salir con Chupa Cabra, como solía ocurrir en los viernes, le preguntaba: ¿Qué tal estoy? y le contestaba ella: ¡Qué mona estás!
De esa manera se sostenía la amistad entre ellas y nunca jamás se podría imaginar que un día llegaría el final del cuento de hadas. fue en una noche de luna llena que aparececió a la Mona un hada que le aconsejó: ¡Cuidáte de Blanca de Las Nieves! Pero ella no le dió oídos y seguía su vida como le parecía menester: acostándose a las dos de la mañana, despertándose al mediodía, salindo de copas con su novio o sus amigos y dijendo a Blanca de Las Nieves tráigame una taza de té o tráigame un vaso de agua o aún tráigame una copa de vino...
Hasta que un día Blanca de Las Nieves fue a la tienda hacer compras y volvió acompañada de Chupa Cabra sonrindo a carcajadas y dijo que le trujera lo que la bella más gustaba, una granada. ¡A ella le tracionó con una granada! Que tonta fue la bella no le tocaba que estaba creando una boa. en el día seguiente Blanca de Las Nieves le reveló que estaba embarazada y cuando cuestionada de quién, ella le ha contestado que era de Chupa Cabra. Y la Mona se quedó enojada y quiso a pegarla una paliza pero su ex-novio de diez años la llevó y con ella se casó. Desde entonces, la Mona pasó de taberna en taberna emborrachándose, salindo de copas todos los días y apenas comía, entregándose a la mierda y echando maldiciones a los dos.
Pero ¡gracias a dios! estoy recuperándome. Yo soy la Mona Borrachera y estoy a siete días sin poner un trago de alcohol en mi boca.

18 de outubro de 2008

Caruru



Letícia Reis

O menorzinho comeu logo três pratos; esperou mais tempo e ainda pegou a gamela _não se importou de sujar as mãos. Alguém pediu que limpasse ouro no pano branco. O maior era retraído, mas o menor destemido obedeceu. Depois soprou as mãos que parecia brincadeira: cantou forte o já comeu, cantou o já bebeu e o que está fazendo aqui. Esperou mais, prudente que era, lá no cantinho da sala, juntinho da mesa, perto dos maiores que aguardavam a vez. “Esse aqui ainda não teve, não é menino?”. Ele assentiu numa esperteza de sobrevivente, contando umas sete moedinhas no chão, onde os pés não se iam; nem os dele, nem os de ninguém, todos cuidavam de evitar aquele canto. Mas, pra minha surpresa, em novo instante, o peguei curioso admirando a oferenda no fundo da casa, pois gostou muito foi de ver as velinhas coloridas e, se não me visse olhando de cá, ia firme no mel do santo. “Essa não pode!”. Ele riu-se todo com os olhos, cutucando o maior descrente. Alguém contou os pedaços de galinha em seu prato comparando os sortidos, outro lhe dera umas balas em segredo. “Espera a galinha gorda!”, ordenou o velho passando com os sacos grandes enchendo as vistas de todo mundo, até dos que entraram sem ser chamados. Daí a pouco, a criançada do lado de fora se engalfinhava numa confusão danada atrás da galinha gorda, mas ninguém conseguia passar pra dentro. Foi um pega daqui, um pega acolá, puxa as calças de um e outro, segura o rabo de cavalo da menina e tome sapato e sandália pra todo lado. Aquilo era a felicidade que vinha doce numa chuva de balas tomando conta da rua toda:”Essa é minha!”, gritou um catando no chão. Um magrinho só de meias escapou com os bolsos cheios e a boca dourada de dendê, rindo como um gaiato depois de levar vantagem no empurra, empurra....La dentro, alguém consentiu a cabeça e o Erê desceu, a roda ficou animada e as palmas uniram-se ás vozes. Um rapaz riu também da traquinagem do menorzinho, que ensaiou um samba miudinho, antes de ser puxado pela manga da camisa; fora mandado para o canto: “Aqui não pode, energias, espere aí!”. O maior, gostando de tudo ver, abaixou-se pra segurar a barra branca da saia da menina:”Oxe!”, a coisa tava foi boa. Eu só sei é que lá pelas tantas, no lajedo da frente, foi uma graça ver o cansaço das crianças barrigudinhas de tanta farra de comida. Alguns tomaram a benção de Mainha cheios do merecido respeito, como gente grande. E assim, de praxe, não faltou quem perguntasse: “minha Tia Preta, aquele quiabo grande, eu comi e agora?”. Ela respondeu, contente que só ela: “Agora é sua vez!. É com você, Cosme, Damião e Doum!”. Omi Beijada!

29 de agosto de 2008

A NOITE


Sheila Góis


Ceci acorda no meio da noite, liga o abajur e olha o relógio: 3:37. Observa curiosa e longamente o homem deitado ao seu lado. Quando dorme, ele adquire uma dose extra de serenidade, mas parece desprotegido... Esse é o único momento! Ele dorme feito uma criança. De pé, é mais um desses homens pretensiosos que crêem que o espaço efetivamente ocupado pelas mulheres é cedido pela compaixão deles e, portanto, elas devem aos homens gratidão pelo abrigo, proteção, companhia, como se as mulheres tivessem de mendigar um compromisso amoroso.

Os olhos de Ceci, então, passeiam inconformados pelo quarto mergulhado na penumbra. A luz da lua cheia atravessa timidamente a vidraça e deita sobre os móveis repousando. Toda a casa dorme. A noite é tão tranqüila! Ela senta na cama devagarzinho, para não acordar Noel, ajeita a alça da camisola que pendia languidamente no braço e esfrega os olhos. Observa outra vez o homem adormecido ao lado. Aquela expressão infantil, a intriga. Ela quer penetrar na cabeça dele, visitar seus sonhos. Com o que Noel estaria sonhando naquele momento? Será que ela habita os sonhos dele? O homem que a condena, que a acusa de mentirosa durante o dia, dorme sob seus olhos feito um menino.

Ela acorda no meio da noite para saborear a tranqüilidade noturna, para observar o sono de Noel e não se permite deixar de rever seu relacionamento. Como aprisionar os sentimentos e os desejos a uma única pessoa, se eles brotam espontaneamente de seu inconsciente? Para que confessar um novo amor que pode passar dentro de algum tempo, tendo de abdicar, assim, de um amor durável? Sim, ela sabe que aquele é um amor durável, sólido, capaz de suportar todas as tempestades que tiver de enfrentar. Não há razão alguma para abandoná-lo e, se ela não pretende deixá-lo, por que comunicar a ele que o mundo não acabou para ela, que ainda sente atração por outras pessoas? Todavia, Ceci, por ser mulher, por ser o verme da sociedade, estigmatizada, não tem permissão para amar duas pessoas simultaneamente.

Ultimamente ele tem perguntado: Pra que mentir? Contudo, se ele sabe que ela mente é porque conhece a verdade. Sendo assim, o que quer ouvir dela? Por outro lado, se ele diz que ela não sabe mentir, é porque não convence. Ela não o engana, se ele não acredita. Confessar seria apenas submeter-se aos caprichos dele, seria dizer o que ele quer ouvir, rebaixar-se a um desejo infantil de ouvir uma verdade que ele já conhece.

No entanto, ele, junto a todos os outros homens, ocupou o mundo e ela vive limitada dentro do espaço que ele cedeu. Como pode mover-se ali dentro sem mentir, se a ela tudo é proibido? Será sempre condenada por tudo o que fizer? E por que todos os direitos devem ser dele, enquanto que a ela cabem os piores deveres? É impossível conformar-se, mas não há nada que ela possa fazer além de continuar mentindo. Pra que confessar? Para destruir a relação? Ele já sabe! Ele sabe e compartilha dessa farsa. O melhor a fazer é mesmo continuar mentindo.

E, então, Ceci fecha os olhos. Daqui a pouco, o sol nascerá e ela precisará acordar mais uma vez para manter a farsa, para continuar iludindo-se, para, por mais um dia, fingir que finge.


Sheila Gois é contista, estudante de Letras da UNEB, além de pesquisar as representações femininas na Literatura.

10 de julho de 2008

CONVERSA PARA BOI DORMIR... (I)


(Kakal)

HOJE ESTOU DEPRIMIDO.
ESTOU COM VONTADE DE CONHECER A MORTE.
ME MATAR, ATIRAR-ME
EM UM TÚMULO.
ELA NÃO ME AMA...OU ME AMA?
ELA ME IGNORA...OU ME AMA...
ELA ME MASSACRA...E ME AMA.
ELA NÃO ME QUER...E ME AMA.
OU SOU EU QUE ME ILUDO?
OU SOU EU QUE ME ATIRO NAQUILO QUE
É UM SONHO MEU?
MORTE. MORTE. RENEGADA MORTE,
ALCANÇA-ME. ESTOU MORRENDO DE SAUDADE DE TI.

PODE-SE SENTIR SAUDADES DA MORTE?
VC CONSEGUE ENTENDER O QUE EU ESTOU SENTINDO?

BELA ESFERA
QUE ENCANTA,
SEDUZ
CÓRROI
O PEITO PNEUMÁTICO
QUE ESTÁS A BATER SERENAMENTE
PARA TI, SÓ PARA TI...
BELA, REDONDA ESFERA...
ESTOU AQUI...QUERENDO CONHECER
O SER QUE JAZZ DENTRO DE TI.
VÔMITE TODA A SUA ÂNSIA EM MIM.
DELEGA-ME O TEU DESEJO A MIM.
MATA-ME DE NOVO.
ENTERRA-ME DE NOVO.
QUEIRA-ME, EU...O SOPRO...
O SUSPIRO...O ÚLTIMO...RESPIRO...
ESFORÇO-ME PARA VIVER,
BUSCA-ME...


8 de julho de 2008

A BESTA DE BARRO


Letícia Reis




Ele sentiu o cheiro do lamaçal e forrou as mãos com o mole do barro, antes de enterrar o balde e catar os bolos de lama. Contemplou o resto de fundo, fez festa como um peixe desterrado e brincou com os dedos entrelaçados em cor originalíssima. Olhou os tons de marrons na confusão com a pele e sorriu admirado. Zé cortava a carne do rio e punha aos magotes no balde ressecado. Idas e vindas no roto da sandália, porque muitas eram as viagens até a beira.
O trabalho era pesado e pra homem feito. Enquanto Zé socava a parede imaginada, antecipando-a, ajustando-a lentamente ao arranjo de paus secos, eu olhava...Ele espalmava as frestas sem deixar espaços, colando um a um os pedaços, numa arrumação de argila e digitais. Erguer aquela armadura difícil, despojada em cruzes, solicitava amansar as ligas e o barro; por isso, Zé elevava pequenos montes no dorso da madeira morta até os outros nós com destreza e habilidade. Às vezes, tomado pela ansiedade, sob a força do toque, fazia despencar à metade as frestas e, inevitáveis, as fendas se abriam_um tabuleiro com ocos, era o que parecia. De fora, podia-se observar o interior semi-encoberto que crescia no fazer das palmas, fazendo o escuro do barro afugentar a luz. O barro dava aos poucos musculatura à ossatura de pau, dando vida aos mosaicos que formavam-se com os pontinhos luminosos do ressequido das paredes. Os pontinhos de luz insistentes penetravam na sombra incompleta e barrenta. Eu imaginei a noite naquelas sombras e contemplei, quieto, sem palavra, o muito que Zé se dava para seu canto. E o seu canto, seu cantinho pequeno, era cheiroso de terra como ele.
A minha alegria vinha quando ele me deixava ajudar a segurar a armação como um escudeiro. “Firme menino!”, assim ele dizia, quase em ininteligíveis palavras. Então, eu agüentava como um homem o esvoaçar da terra desfalecida na água, que salpicava as minhas vistas segurando firme o balde. Meu rosto figurava um mar de gotas de barro que só as costas das mãos conseguiam arrastar, trazendo riso àquela máscara opaca. Zé aceitava sorrindo também e exigia o balde seco com as papas do rio. Eu ia buscar de pronto. A lama semi-sólida acariciava suas mãos duras bordando estrias marrons. Juntas, elas lançavam o peso e a força do soco na casca da casa, apaziguando com lama mole as recusas do barro indócil. Pacientemente, ele ajeitava os ângulos imantado pela lembrança do rio seco, consciente de cada trecho da sua modesta fortaleza feita de tato e suor. Zé entretinha-me, fazendo-me devoto da sua devoção àquele totem silencioso que parecia avançar para além da metade. Eu via a tarde se indo e a maloca subindo e descendo junto com a noite; eu via a armação se perdendo no barro e lutando contra ele.
A determinação de Zé aumentava e a minha ansiedade em ver a casinha inteira crescia com o desfiar do tempo...Mas o tempo ia, a noite ficava larga e Zé ainda dava viagens ao rio. O caminho todo já eram seus pés e rastros de barro. Eu perguntei se queria pôr o ponto na terra, quem sabe a lama se quedasse mais nos secos, no alto que a casa não queria. Ele dizia pra eu esperar que ela ia aprumar, mas o frio já tava grande, eu já sentado à espera e ela não subia. Zé não parava de ajeitar os pedaços de lama. Eu podia ver a sua pele enrugada pela umidade, o corpo se franzindo de terra; uma carne pela outra ia lhe tomando naquela feitura sem fim, as estrias engrossando no não da casa. Eu, cansado, pesado, de tanto ir e vir, deixei as vistas descansarem..."Acorda menino, vai buscar mais barro!". Olhei para ele e sua face lembrava uma pedra nova, mansa, como se fosse derreter nas mãos. “Ele não dormiu”, pensei. Obediente, corri para o balde vazio e ganhei o filete das pegadas de Zé até o centro do rio. Enchi-o todinho e, apesar da dor do estômago, a vontade de ver a maloca pronta fazia-me ganhar forças com o peso do barro. A lama já não era brincadeira, mas uma experimentação. Cortei com calma um pedaço da beira...
Zé mal me deixou arriar o balde no chão, foi tomando, fazendo formas com as mãos e lutando pra domar os ossos do casebre, numa precisão estranha.
Eu estava com fome, impacientado com a soberba da casa e com a humildade incompreensível de Zé. Tentei jogar terra na lama, mas ele só dizia pra eu me aquietar. Eu queria ajudar e ele não deixava. Daí o sol subiu desdobrando nossa sombra e o quase nada do meu corpo não obedecia mais a fome, e sim aos chamados da casa. Enfiei as mãos na lama, sentindo o peso da terra nas mãos, apoderei-me de um bom pedaço e atirei com força na maloca rebelde. “Deixa menino, é coisa minha!”, ele só dizia isso; me afastando, aumentando minha raiva, me irritando, me empurrando pra trás quando eu puxava o balde pra mim. Permanecemos nessa luta, enquanto a raiva rondava e eu já gostando de vê-la por perto. Zé obstinado e eu odiando aquele demônio de barro. Ele não desistia. O homem não parava e os ossos da casa teimavam em não tomar corpo. Eu doido de fome, a casa indomável e Zé irredutível, enchendo de rio aquela casa ingrata. Chorei de ódio e fui pra meu canto, largando Zé como ele merecia: sozinho. Mas a curiosidade era minha guia e, por mais que eu tentasse, não consegui deixar de voltar lá no dia seguinte. Novo e de estômago forrado, retornei ao terreiro e ele estava lá, vivo, socando barro no diabo da casa. Corri para o balde e atirei fora toda a lama que tinha. Zé gritou e, desta vez, com muita força: “Sai menino!”. Lutamos pelo balde, eu resistindo tomando das mãos dele aquela arma da loucura. “Será que você não vê, seu Zé dos infernos, ela não vai pra lugar nenhum, ela não está subindo, seu burro, burro dos diabos!”. Agarrei as pernas dele sem sucesso, elas pareciam caminhar sozinhas na direção o rio. Os rastro já eram um caminho fundo, a lama parecia não ter mais fim. Num último esforço, quis destruir a casa maldita a socos e pontapés. Os ocos se abriam, minhas mãos se feriam, meus braços afundavam naquela arrumação. Eu queria um fim àquilo tudo, desatar os nós. No entanto, quando minhas mãos se preparavam para atacá-la mais uma vez, Zé atirou-me com uma força descomunal para trás. Caído, só vi o cinza das nuvens se desatar em pingos grossos. Era a chuva que tomava tudo; eu ri de felicidade, porque era o fim do diabo de barro. “Vamos Zé, vamos embora, largue isso aí!”, gritei alto, mas ele arrastava o balde no caldo da lama tentando dar vida à casa. A chuva doía no meu corpo, açoitava ele também, mas Zé insistia em ficar. Sem saída, fugi enlameado e, lá do alto, já sem cara e caído, vi Zé agarrando-se aos ossos de pau que como ele fora tomado pelo barro desfalecido. O rio crescia de lá com a chuva; o balde desaparecera na confusão; eu continuei gritando, mesmo sabendo que ninguém mais escutava. Zé morto, a casa morta, engolidos pelo barro mole numa casca só e eu no chão sem mais nada poder fazer. O cheiro da terra e as dores da chuva ainda sinto, mas na beira do rio nunca mais voltei. Deixei Zé na sua sepultura; deixei-o lá, forrado de chuva e ossos, com sua besta de barro.